Curvas do tempo…

O tempo, dizem, é uma linha reta que avança implacavelmente. Mas quem vive no Acre, acompanhando as voltas do Rio Acre, sabe que a vida se faz de meandros. As curvas do tempo trazem de volta pessoas, cheiros e sensações que julgávamos perdidos para sempre.

Lembro-me de caminhar pela Gameleira ao final da tarde. O sol se punha entre as copas das árvores e a luz fazia a poeira dançar no ar. Naquele instante, o tempo pareceu parar. Não era nostalgia, era uma certeza de que tudo está conectado em uma grande espiral. Cada curva do rio trazia uma nova paisagem, e cada curva da memória nos devolvia um instante esquecido.

Há quem diga que o tempo só se revela nas pequenas coisas. No cheiro do café passado ainda escuro, no som da chuva batendo no telhado de zinco das casas de Rio Branco, na conversa fiada na praça da Gameleira. Esses momentos são como as curvas que o tempo faz para nos lembrar que o essencial não está na pressa, mas na pausa.

A filosofia sempre buscou desvendar essa teia. De São Tomás de Aquino aos poetas modernos, a pergunta persiste: somos nós que nos movemos no tempo, ou é o tempo que se curva ao nosso redor? Para o cronista das coisas simples, a resposta está nos gestos. Na mão que acena, no livro que se abre, no silêncio compartilhado.

Na Biblioteca da Floresta, entre estantes de filosofia e literatura, o tempo parece adquirir outra textura. Os livros ali guardam as curvas de tantos outros tempos: o tempo do autor, o tempo do leitor, o tempo da própria floresta que inspirou cada palavra. Folhear uma página é aceitar um convite para nos perdermos deliberadamente nas dobras do calendário.

Talvez por isso o poeta Thiago de Mello, filho da floresta, tenha escrito os "Estatutos do Homem". Mais do que um poema, é uma cartografia do tempo afetivo. Um convite para que os dias não sejam apenas uma sucessão de horas, mas um tecido cheio de curvas, de encontros e reencontros. Cada curva é um recomeço.

Que as curvas do tempo nos tragam mais perguntas do que respostas. É nas perguntas que a vida se renova, como as águas do rio que, mesmo voltando, são sempre novas. Que cada amanhecer nos encontre dispostos a percorrer as voltas e reviravoltas da existência com a mesma curiosidade de quem se senta à beira do Rio Acre e simplesmente contempla.

Voltar para o Varal de Idéias