O Sol, o Mar e o Poeta…
O sol se põe sobre o mar. É uma imagem universal, quase banal de tão repetida. Mas para o poeta, não há banalidade que resista ao mergulho da palavra. O poeta verdadeiro não precisa estar diante do oceano para senti-lo; ele carrega o mar na memória das palavras.
A praia, a espuma, a linha do horizonte que separa o azul do céu do azul do oceano — tudo isso vira matéria no caderno. Há uma musicalidade na repetição das ondas que ecoa nos versos dos grandes poetas. No Acre, somos homens e mulheres de rio, não de mar. As águas do Rio Acre cortam a cidade com uma sinuosidade que o mar não conhece. O mar é repetição, ondas que vêm e vão num ritmo incansável. O rio é curva, é espera, é cheia e vazante.
O poeta que vive longe do mar carrega essa ausência como uma doce ferida. Talvez por isso, quando escreve sobre o sol, ele o vê refletido nas águas barrentas do rio. Quando escreve sobre o mar, ele o inventa. E a invenção, como sabemos, é a mais alta forma de verdade.
O poeta é aquele que precisa de pouco para ver muito. Uma janela aberta para o quintal, a chuva que cai sobre o telhado de zinco, a conversa fiada na esquina. Tudo isso é combustível para a imaginação. O mar pode ser um sonho distante, mas o sol — o sol é de todos, todo dia, lembrando-nos que a beleza está nas coisas simples.
E assim, entre o sol que nasce e o mar que se inventa, o poeta segue. Escrevendo, rabiscando, tentando capturar nas linhas tortas do verso a imensidão do instante.
Que o sol nos encontre sempre com o caderno aberto.