A Rosa e o Veneno…
Na filosofia, encontramos a ideia do phármakon: remédio e veneno ao mesmo tempo. Aquilo que cura pode matar, e o que mata, em doses homeopáticas, pode curar. Não é assim o amor? Não é assim a arte? Há uma beleza nas coisas que nos ameaçam. A rosa, em sua perfeição fugaz, guarda espinhos que ferem como um veneno sutil. O veneno, por sua vez, sempre carrega uma estranha sedução, a promessa de uma transformação radical. Vivemos entre essas duas forças: a atração pelo belo e o risco do dano.
Quantas vezes não nos entregamos a uma ideia, a uma pessoa, a uma paixão, sabendo que ali habita um veneno? A literatura está cheia desses encontros fatais, dessas flores que escondem o mal. Thiago de Mello escreveu sobre a poesia como um antídoto. Mas a poesia também tem seu veneno — a verdade que incomoda. É uma faca de dois gumes, uma rosa negra que nos obriga a enxergar o que queremos esquecer.
Lembro-me de uma conversa à sombra da Gameleira, em Rio Branco, onde um velho sábio me disse: "A vida é feita de rosas e venenos, meu filho. O segredo não é evitar os espinhos, mas aprender a colher a flor sem se rasgar por completo." Foi uma lição que carrego até hoje. Na política, quantos discursos são rosas cheias de veneno? Na cultura, quantos venenos se disfarçam de rosas?
Assim, seguimos. O veneno da rotina, a rosa do encontro inesperado. O veneno das certezas absolutas, a rosa da dúvida criadora. O que somos senão jardineiros imperfeitos tentando cultivar a beleza sem morrer na tentativa? O resto, como sempre, é silêncio e poesia.