A Menina e o Filósofo

Ela tinha os olhos cheios de perguntas. Ele, o coração cheio de dúvidas. Encontraram-se numa tarde qualquer, na varanda da Biblioteca da Floresta, em Rio Branco.

— O que é um filósofo? — perguntou a menina, sem tirar os olhos do homem que lia o silêncio.

Ele fechou o livro devagar. — É alguém que não esqueceu como fazer perguntas de criança.

Ela riu. — Então eu sou uma filósofa?

— Todas as crianças são — respondeu ele. — O problema é que a vida vai ensinando a gente a ter vergonha de perguntar.

A menina sentou ao seu lado. Contou-lhe sobre as estrelas que via do quintal de casa, sobre o cheiro da terra molhada quando chove no seringal, sobre o medo do escuro e a alegria de encontrar um passarinho caído do ninho.

O filósofo ouviu como quem ouve uma música antiga. Depois, disse:

— Você já descobriu o que os livros mais importantes tentam ensinar: a arte de prestar atenção nas coisas simples.

Ela franziu o nariz.

— Mas eu não sei ler direito ainda.

— Isso não importa. O mundo é um livro que se lê com os olhos e com o coração. As palavras vêm depois.

Ficaram em silêncio. O vento batia nas folhas das árvores. Um cachorro latiu ao longe. O rio Acre corria preguiçoso, levando histórias.

Antes de ir embora, a menina abraçou o filósofo.

— Vou ser filósofa quando crescer — disse.

Ele sorriu e respondeu:

— Não precisa esperar crescer. Basta não deixar a menina que existe em você morrer. Ela é a sua maior sabedoria.

A menina saiu correndo, com a alma leve. O filósofo ficou. Abriu o livro novamente, mas já não lia. Apenas sentia a vida – esse poema sem pressa que a gente aprende a declamar com os anos.

(Crônica inspirada no universo de Thiago de Mello, Manoel de Barros e na beleza das coisas miúdas.)