NOSSO NASCER FOI AMANHÃ…

Sempre me pego pensando nessa frase que me veio não sei de onde: "nosso nascer foi amanhã". Ela carrega uma inversão temporal que, mais do que um jogo de palavras, parece dizer algo profundo sobre a condição humana. Nascemos não no passado, mas no futuro. O ato de vir ao mundo já é um salto para o que ainda não era.

Se o nascer é amanhã, então estamos sempre em gestação. A vida não começa quando saímos do ventre, mas quando nos projetamos para o que está por vir. Talvez por isso tenhamos tanta dificuldade em entender o presente: ele é apenas o umbigo que liga o que fomos ao que seremos.

Essa ideia me lembra os versos de um poeta que dizia que o homem é o único animal que nasce inacabado. E se o nosso acabamento está no amanhã, então cada dia é um novo nascimento. Cada escolha, um parto. Cada erro, uma chance de recomeçar.

Essa ideia também se revela nos pequenos rituais de recomeço. O estudante que inicia um novo ciclo, o artista que enfrenta a tela em branco, o viajante que pisa em solo desconhecido — todos experimentam, de algum modo, o nascer prometido para amanhã. Cada começo contém a promessa de um futuro que ainda não escrevemos.

Talvez a sabedoria esteja em aceitar que nunca estamos prontos, porque o "amanhã" é justamente o espaço do possível. Não precisamos ter todas as respostas hoje. Basta estarmos vivos para o que virá. E, nesse sentido, todo instante é um parto — e toda vida, um permanente nascer.

No fundo, a frase nos convida a olhar para frente com a mesma esperança de quem vai nascer. Não importa o que ficou para trás. O que importa é que o nosso nascer — o verdadeiro — está sempre por vir. E isso, penso eu, é o que nos mantém vivos.

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