A VISITA DA POETISA

A cidade acordou diferente. Não havia anúncio em jornal, nem faixa na rua. Mas o ar parecia mais leve, como se as palavras fossem flores desabrochando no chão de terra batida. Era a visita da poetisa.

Ela chegou sem alarde, trazendo na bagagem a leveza dos versos e a força das histórias. Sentou-se à sombra da gameleira, tomou café com farinha e ouviu os causos dos ribeirinhos.

Durante a tarde, percorreu as ruas de terra, conversou com os mais velhos, ouviu as crianças brincando. Anotou num pequeno caderno expressões que ouvia, gestos que via. Percebeu que a poesia já estava ali, nas entrelinhas do cotidiano, misturada ao cheiro da mata e ao som dos pássaros.

À noite, na simplicidade do coreto da praça, juntaram-se alguns poucos que sabiam do seu valor. Era um encontro de almas. Ela declamou versos de Thiago de Mello, de Manoel de Barros, declamou o silêncio. Um silêncio que ecoava a própria essência da Amazônia.

Na manhã seguinte, antes de partir, sentou-se à beira do rio e escreveu alguns versos num papel. Ofereceu‑os a uma criança da comunidade. «Guarde isto», disse. «Um dia você entenderá que as palavras são a nossa maior riqueza.»

Quando partiu, deixou mais do que lembranças. Deixou uma semente. A poesia passou a fazer parte do cotidiano.

A visita da poetisa não está nos registos oficiais. Mas está gravada na memória afetiva de quem testemunhou que a arte ainda é o maior gesto de resistência.