A Visita da Poetisa

Havia no ar uma expectativa silenciosa. Quando a poetisa chegou, as folhas das árvores pareciam prestar atenção. Vinha de longe, trazendo na bagagem mais versos do que roupas, como convém a quem entende que a poesia é a verdadeira vestimenta da alma. Sua visita à nossa cidade, à margem do Acre, não era apenas um evento literário; era um respiro, uma pausa no tempo desmedido.

Entrou na sala com passos leves, como quem não quer perturbar os livros. Tomou a xícara de café e, antes de qualquer discurso, pediu licença para ler um poema de sua autoria, escrito naquela manhã, à beira do Rio Acre. A voz era calma, mas cheia de uma força antiga. Os versos falavam de mulheres que tecem o tempo com as mãos, de sementes que guardam histórias. Por um instante, o silêncio foi absoluto – só a palavra bastava.

Encontramo-nos na velha biblioteca, onde o cheiro de papel antigo se misturava ao perfume de café passado na hora. Ela falou sobre a palavra como ferramenta de transformação social, sobre a necessidade de dar voz ao silêncio da floresta. Citou Thiago de Mello, nosso poeta maior, e disse que a poesia é uma forma de resistência contra o esquecimento. Naquele instante, os livros nas estantes pareciam concordar, cúmplices de uma verdade que só a arte sabe pronunciar.

Ela nos lembrou que cada árvore na Amazônia carrega histórias de povos e saberes que a cidade muitas vezes ignora. “A poesia”, disse, “é uma língua que a floresta entende.” As palavras dela ecoaram pelas prateleiras como se os próprios livros antigos respondessem. Fiquei pensando naqueles que vivem isolados no seringal, para quem a palavra chega tardiamente, mas nunca perde a força.

À noite, uma roda de conversa na Usina de Arte. Gente de toda parte, jovens com cadernos e olhos atentos, velhos sábios que já não se espantam com nada, a não ser com a beleza de um verso bem dito. Ela leu seus poemas, e cada palavra era uma semente lançada na terra fértil das nossas inquietações. Falou de Manoel de Barros, da importância do “desaprender” para sentir o mundo de verdade. O silêncio era tão profundo que se ouvia o rumor do rio.

Entre os jovens, muitos traziam seus próprios escritos, rabiscados em cadernos surrados. Ela ouviu cada um com paciência de quem sabe que todo poema é um parto. Incentivou-os a continuar, a não ter medo do ridículo. “A poesia não se importa com a perfeição”, disse, “ela quer é vida.” Naquele momento, a Usina de Arte parecia uma grande sala de partos de palavras.

A visita me fez pensar sobre o papel do poeta no mundo contemporâneo. Em tempos de ruídos vazios, a poesia ainda é capaz de nos encontrar. Ela não precisa de palcos gigantes; basta uma roda de amigos, um olhar sincero e a disposição para a beleza. A poetisa nos lembrou que o verbo é a nossa casa comum, o chão onde podemos nos encontrar, apesar das diferenças que insistem em nos separar.

Nesse sentido, a poetisa não era apenas uma visitante, mas uma curandeira da palavra. Trouxe bálsamo para as feridas do cotidiano e nos mostrou que a beleza resiste mesmo nas paisagens mais áridas. Ela reafirmou o compromisso do poeta: não embelezar a realidade, mas revelar a verdade que nela lateja.

Partiu no dia seguinte, levando consigo as imagens da nossa cidade barrenta. Ficaram os poemas rabiscados em guardanapos, as anotações nas margens dos livros, o brilho no olhar de quem ainda acredita. Ficou, sobretudo, a certeza de que a poesia é essa visita que nunca vai embora de vez. Ela se instala na gente, feito rio que teima em correr, feito semente que espera a chuva para brotar em forma de palavra.

Hoje, passados alguns meses, ainda encontramos versos soltos pelos cantos da cidade. Nos murais da biblioteca, nas conversas do mercado, nos olhares dos adolescentes que agora ousam escrever. A visita da poetisa nos deixou um legado: a poesia como prática de liberdade. E, enquanto houver quem leia e escreva, a visita nunca terá fim.