A DITADURA DA DUBLAGEM…
Marlon Brando, interpretando Don Vito Corleone em “O Poderoso Chefão” (1972, Ford Coppola). A voz imortalizada no cinema…
Numa tarde ensolarada de 2005, o Binho Marques me convidou para ver as obras da futura Usina de Arte. Enquanto os operários trabalhavam, ele se abaixou, desenhou no cimento como ela seria e disse:
- Eu quero que você dê a primeira oficina nesta Usina e que ela seja uma sensibilização à filosofia da arte.
A ideia ficou comigo. No ano seguinte, com quarenta alunos selecionados da escola Armando Nogueira, fizemos a oficina “Prazer, Filosofia!”. Foi o meu retorno às aulas e o embrião da palestra que faço hoje sobre ética e cultura no tempo e no espaço, já ministrada para mais de sete mil pessoas.
Os quarenta jovens estavam entusiasmados. Filhos de trabalhadores, comerciantes e funcionários públicos, eles nunca haviam entrado numa experiência parecida. Durante as tardes de três semanas, eles se dirigiam à Usina e conheciam minimamente os fundamentos de filosofia, o mundo da literatura, do cinema, artes plásticas e música. E fizemos uma aula nas florestas do Seringal Cachoeira, onde nasceu, também, a ideia das imersões ao nosso tempo e espaço originais, que já levou 450 pessoas a esta experiência que é organizada pela Sociedade Filosophia com o apoio da Biblioteca da Floresta e vários parceiros. Uma ideia surgindo da outra e assim por diante.
Para a oficina da Usina, fizemos uma cuidadosa seleção que envolvia afinidade com o tema e interesses comuns entre os estudantes. Com os papéis nas mãos, vi que quase todos adoravam música sertaneja ou popular romântica, liam basicamente os livros paradidáticos e assistiam somente à TV aberta, especialmente às novelas mexicanas. E muitos queriam ser poeta, ator, escritor ou dançarina.
Foi um sucesso! Toda tarde um mundo de novidades! Monet, Bach, Beethoven, Shakespeare, Drummond, Dalí, Chaplin, jazz, rock, MPB, acreanidades, uma miríade de assuntos.
Mas, um fato me chamou atenção. Lembro que passei dois filmes. Um deles chamava-se “Corra Lola Corra” (1998), do diretor alemão Tom Tykwer, vencedor de Melhor Filme Estrangeiro pelo Independent Spirit Awards e ganhador do Prêmio de Audiência, no Sundance Film Festival. Escolhi este filme pela atualidade e por sua didática ao entendimento inicial das casualidades, possibilidades de interpretação e escolhas que podem ser aferidas na história.
A cinemateca da Usina estava num silêncio absoluto quando as imagens começaram a surgir na tela. Subitamente, tomo um susto enorme! Uma verdadeira gritaria se instalou no auditório. Protestos, reclamações, dois ou três se levantaram. Motivo? O filme era legendado.
Parei a exibição, estupefato. E, em vez de exibi-lo, passamos a debater a questão, que durou a tarde toda. Eles argumentavam que a legenda atrapalhava a compreensão do filme, que não podiam ler a frase toda, ficavam cansados e por fim não se divertiam.
Com todo o cuidado, fui trabalhando a necessidade da leitura como hábito, a capacidade que adquirimos em apreender complexidades com o estudo, a importância da língua como uma das identidades nas manifestações artísticas etc.
Não sentia muito eco. Foi quando me lembrei de Marlon Brando e a sua monumental e inesquecível interpretação em “O Poderoso Chefão” (1972), de Francis Ford Coppola.
Marlon Brando, quando ainda nos laboratórios de escolha do elenco, soube que tinha um desafio imenso, árido como as colinas da Sicília, pela frente. Como dar densidade a um personagem tão forte como Don Vito Corleone? Como ele poderia interpretar uma moral, um entrelaçamento de culturas, paradoxos, ambições, doçuras e violências, sem ser caricato e com plena autenticidade? Brando foi ao camarim. Colocou dois chumaços de algodão em sua boca e se apresentou ao Coppola.
A voz!
Marlon Brando, genialmente, descobriu que a voz seria a síntese perfeita para o Don Corleone. E o personagem entrou, definitivamente, para a história do cinema.
Já assisti dezenas de vezes “O Poderoso Chefão” (a trilogia). E muitas delas só para ouvir a voz de Marlon Brando. Agora, experimente ver o filme dublado. Uma lástima! E um desrespeito à interpretação, à arte, à língua.
Os alunos da oficina me viram fazer uma brincadeira. Sentei numa cadeira e com um inglês para lá de macarrônico, tentei mostrar as vozes, no original e na dublagem, de uma cena em que Corleone conversa no restaurante da família.
O impacto deu certo. Na outra tarde, assistimos “Corra Lola Corra” com legendas e todos nós sobrevivemos. Ainda hoje, oito anos depois, encontro vários alunos e eles falam que só assistem a filmes legendados, como demonstração de respeito às interpretações que se completam com a voz, ou dependem inteiramente dela.
Escrevo tudo isso para dizer que hoje, quando me aventuro a ir ao cinema do shopping, sou assediado pela ditatura das dublagens.
Compreendo que para os filmes infantis, a dublagem seja necessária. E muitas são de excelente qualidade. Não sou contra que filmes de puro entretenimento sejam dublados pelas mesmas vozes artificiais de sempre (é horrível você ouvir personagens completamente diferentes com a mesmíssima voz em outros filmes).
Mas tudo dublado? Não. Se depois de um dia puxado de trabalho você ainda tiver força para ir ao cinema, resta-lhe a sessão das 21h30, com legenda. E você vai, torcendo para que aquela cena belíssima de fotografia não seja interrompida pela luz azul do celular da figura da frente que liga o Facebook. E fazendo figa, para que não apareça um Galvão Bueno para narrar o filme, cadeira acima. Ou pedindo aos céus para que ninguém sente ao seu lado triturando as mandíbulas com pipocas ou outra refeição.
Pois bem. Se sobreviver a isso, tem mais. Você chega além de meia-noite em casa, mais cansado, não pela leitura das legendas (óbvio), mas por ter sido exposto a um horário que atende aos interesses do lucro e a nenhum interesse pela cultura.
É de se perder a voz…