HAJA HOJE PARA TANTO ONTEM…
Haja hoje para tanto ontem. Esta frase, que pode ter surgido em uma conversa ao entardecer na varanda de uma casa em Rio Branco, ou durante uma leitura silenciosa na Biblioteca da Floresta, carrega uma verdade universal: o acúmulo do vivido. Marcos Afonso, com sua pena acostumada a versar sobre o Acre e o mundo, sabia que o tempo não é apenas uma sucessão de segundos, mas um novelo de memórias, afetos e descobertas.
O desafio do presente é justamente este: como abarcar a imensidão do que já foi sem se perder na nostalgia ou no peso do arrependimento? A resposta talvez esteja na arte de viver cada instante com a consciência de que ele logo será passado, tecendo a rede que nos sustenta. A poesia, os livros, as conversas e os silêncios são os fios dessa trama. Cada lembrança — uma imagem da infância, o cheiro da terra molhada, a voz de um amigo — pede um lugar no hoje, exige ser reconhecida para que não se torne fardo.
No fundo, "haja hoje para tanto ontem" não é um lamento, mas um convite. Um convite para honrar o que passou, agindo no presente com a sabedoria de quem reconhece a finitude e a beleza de cada momento. Que as manhãs no Acre continuem a inspirar poetas e cronistas, e que o varal de idéias continue a secar ao sol da memória.
O pensador francês Gaston Bachelard escreveu que a memória não é um arquivo morto, mas uma casa onde habitamos. Se ontem nos construiu, hoje é a morada que estamos a erguer. Não se trata de negar o passado, mas de integrá-lo com leveza, como quem carrega uma bagagem que, em vez de pesar, enriquece a caminhada. O poeta acriano, ao olhar para a paisagem da floresta e da cidade, sabe que cada dia contém séculos — e que o instante presente é o único lugar onde podemos verdadeiramente agir.
Talvez por isso a crônica se chame assim: "HAJA HOJE PARA TANTO ONTEM…". Não é uma desistência, mas uma afirmação da vida que pulsa agora. Ler essas palavras nos convida a parar, respirar e escolher o que fazer com o tempo que nos resta. E, como bem sabia Marcos Afonso, escrever é uma forma de dar conta dessa imensidão — palavra por palavra, dia após dia.