Rio Branco, janeiro de 2013.
Querida Leila,
Escrevo esta carta-desafio não como quem impõe uma tarefa, mas como quem estende um convite ao pensamento. Um convite para refletirmos juntos sobre o lugar da cultura em nosso tempo, nas estreitas vielas da memória acreana e no vasto cenário brasileiro.
Vivemos cercados por um turbilhão de imagens e sons que nos chegam prontos, dublados em português de Portugal ou moldados por uma indústria cultural que pouco se importa com nossas particularidades. A Ditadura da Dublagem, como já comentei aqui, é apenas a face mais visível de um processo maior de apagamento das identidades locais. Contra ela, o que podemos fazer?
Nos últimos anos, tenho acompanhado seu trabalho à frente da Biblioteca da Floresta e sei o quanto você tem se dedicado a preservar não apenas livros, mas a própria memória viva do Acre. Sei também que não é tarefa fácil. Os arquivos públicos padecem de descaso, as políticas culturais são intermitentes e a juventude, cada vez mais atraída pelo efêmero digital, perde o contacto com as narrativas que formaram nossa alma coletiva.
O desafio que lhe proponho, Leila, é o de resgatarmos juntos essas narrativas esquecidas. Não se trata de um projeto burocrático, mas de um gesto quase artesanal: reunir pessoas dispostas a ouvir e a contar histórias. Conheço seu talento para mobilizar a comunidade. Você já organizou rodas de leitura, oficinas de poesia e sessões de cinema comentado. Precisamos dar um passo adiante.
Proponho um ciclo de encontros abertos, um por mês, cada um dedicado a uma faceta da nossa produção cultural. Por exemplo: o primeiro encontro poderia ser sobre os antigos filmes caseiros que registram a vida nos seringais; o segundo, sobre a poesia de Alcides Werk e de outros poetas acreanos; o terceiro, sobre a literatura de viagem de Euclides da Cunha e Mário de Andrade pela Amazônia; o quarto, sobre a música dos povos indígenas da região. Cada encontro seria precedido de uma pequena pesquisa e encerrado com uma atividade prática – uma leitura dramática, a exibição de um curta, um debate aberto.
E por que não incluir também uma noite dedicada às mulheres que fizeram a cultura do Acre? Historiadoras, artistas, professoras que mantiveram viva a chama do conhecimento em tempos adversos. Você, Leila, é um exemplo dessa resistência feminina. Seria uma oportunidade de resgatar biografias inspiradoras e mostrá-las às novas gerações.
Esses encontros não precisam de grandes recursos. Podem acontecer na própria Biblioteca da Floresta, na Usina de Arte ou até mesmo ao ar livre, debaixo da Gameleira centenária. O importante é criar um espaço de escuta e de criação, onde os jovens possam se reconhecer nas vozes dos mais velhos e, a partir delas, construir as suas próprias.
Sei que o tempo é insustentável e que a rotina nos consome. A vida moderna parece feita para nos distrair do essencial. Mas é precisamente por isso que este gesto se faz necessário. Não podemos deixar que a história da nossa gente vire pó, que as vozes dos nossos avós se percam no zumbido dos aparelhos.
Como diria o poeta, "temo o homem de um livro só". Não quero que sejamos assim. Quero que sejamos muitos livros, muitos filmes, muitas vozes. A sua resposta, Leila, é o primeiro capítulo desta história que podemos construir juntos. Uma história que não será escrita por nós, mas por todos que se dispuserem a ocupar este espaço de criação.
Aguardarei sua resposta com a ansiedade de quem espera a próxima página de um bom romance. Ou, como ensina a sabedoria popular, com a paciência de quem sabe que a liberdade é uma semente que leva tempo para germinar em terra fértil.
Com a amizade e a admiração de sempre,
Marcos Afonso